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Conheça a história da AIDS no Brasil

Este ano a primeira morte pelo vírus HIV (agente causador da imunodeficiência adquirida) completou 40 anos. Em meio a uma nova pandemia, a lembrança de outros tempos desafiadores para a Medicina é uma moeda com duas faces bem diferentes. De um lado, carrega o medo pelas mortes que não podem ser evitadas. Do outro, traz a esperança de que a cada dia estamos mais perto de encontrar a cura para mais uma doença.

Atualmente, uma pessoa soro positiva pode levar uma vida normal, principalmente, quando o tratamento já tornou sua carga viral indetectável. Isso porque, nestes casos, a pessoa com HIV não transmite mais o vírus. De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, entre 2009 e 2019, verificou-se uma queda de 29,3% do índice de mortalidade por AIDS no Brasil. No entanto, como qualquer doença, a imunodeficiência adquirida precisa ser levada mais a sério.

Quase 10 mil pessoas morreram por complicações da AIDS em 2019. Dez mil vidas perdidas pela falta de uma postura preventiva massificada em nossa sociedade, que nos impede de zerar os índices de novos casos da doença. Portanto, manter viva a história do árduo caminho que nos trouxe até aqui não tem por intenção causar pânico, mas sim respeitar a memória dos que se foram.

Afinal, nós do Grupo Afya acreditamos no poder da conscientização. Se você também acredita, compartilhe este artigo com seus amigos.

Década de 1980

O primeiro caso de HIV no Brasil foi registrado na cidade de São Paulo, mais especificamente no Hospital Emílio Ribas, em 1980. Porém, foram necessários ainda mais dois anos para que o diagnóstico fosse classificado como AIDS.

Em 1983, foi quando noticiaram a primeira infecção entre mulheres no país, a contaminação de profissionais da saúde e também quando foram revelados relatos de transmissão heterossexual do vírus. Neste ano, 1.283 pessoas morreram em solo brasileiro devido à doença.

No ano de 1984, o setor público avançou de forma localizada com a estruturação do Programa da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, pioneiro no país para controle e prevenção da AIDS.

Após o isolamento do vírus dois anos antes, por uma companhia francesa, em 1985 surgiu o primeiro teste sorológico para diagnóstico do HIV, baseado na detecção de anticorpos no organismo do portador e em bancos de sangue. Finalmente, em 1986, foi criado o Programa Nacional de DST e AIDS do Ministério da Saúde.

Em meio às boas notícias, o Brasil saiu à frente na América Latina, sendo o primeiro país do continente a isolar o HIV-1. Tal feito foi obra dos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, em 1987. Neste mesmo ano, deu-se início a administração do AZT para pacientes aidéticos no mundo e foi quando a Organização das Nações Unidas estabeleceu 1º de dezembro como Dia Mundial de Luta contra a AIDS.

Em 1988, com a promulgação da nova Constituição Federal, marcando a volta do regime democrático, foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS). Infelizmente, também foi neste ano que se registrou o primeiro caso entre a população indígena e o país já acumulava mais de quatro mil casos da doença.

O fim da década, porém, chegou com uma vitória histórica. Em 1989, a indústria farmacêutica Burroughs Wellcome não resistiu às pressões de ativistas e reduziu o preço do AZT em 20% no Brasil.

Década de 1990

Com a morte de Cazuza pela doença em 1990, os pais do cantor fundaram uma ONG para cuidar de crianças e adultos portadores do vírus HIV, acolhendo-os e oferecendo remédios e cestas básicas. Após 30 anos funcionando, porém, a Organização anunciou o encerramento das atividades.

Em 1991, conquistamos outro marco histórico: o Ministério da Saúde deu início à distribuição gratuita de retrovirais pela rede pública. Nesse mesmo ano, a Fiocruz foi convidada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para participar da Rede Internacional de Laboratórios para Isolamento e Caracterização do HIV-1.

Após mais um ano de luta, os procedimentos necessários para o tratamento da doença foram incluídos na tabela do SUS. Foi também em 1992 que a combinação entre os medicamentos AZT e Videx tornou-se oficialmente o “coquetel antiaids”.

Em 1993, dois eventos marcaram o Brasil. Primeiro, o AZT começou a ser produzido em território brasileiro. Mais tarde, a Rede Internacional finalmente começou a operar no país, mapeando a diversidade genética do vírus e orientando a seleção de potenciais vacinas e medicamentos a serem utilizados pela população.

Já em 1994, o Ministério da Saúde firmou acordo com o Banco Mundial a fim de impulsionar as ações de controle e prevenção da AIDS no Brasil. Um ano depois, em 1995, foi criado o Simpósio Brasileiro de Pesquisa em HIV/AIDS (Simpaids).

Novos medicamentos surgiram nesta época e, em 1996, a prescrição do tríplice esquema de antirretrovirais, que combinava dois inibidores transcriptase reversa e um de protease, foi regulamentada. Logo depois, a Lei 9.313 estabeleceu a distribuição gratuita destes aos portadores de HIV.

Em 1997, houve a implantação da Rede Nacional de Laboratórios para o monitoramento de pacientes soropositivos em terapia antirretroviral no Brasil. E, em 1999, o Governo Federal divulgou a redução em 50% de mortes e em 80% de infecções oportunistas no país graças ao uso do coquetel antiaids. Até este ano, porém, mais de 155 mil casos de AIDS já haviam sido registrados no Brasil, sendo 43% entre pessoas de 25 a 34 anos.

Década de 2000

Junto à virada do século, cinco companhias farmacêuticas decidiram reduzir o preço de remédios antirretrovirais que estavam sendo utilizados em países em desenvolvimento, condição à qual o Brasil enquadrava-se. Nessa época, a disparidade de casos entre gêneros era grande, sendo o dobro de casos registrados em homens.

Em 2001, ocorreu a implantação da Rede Nacional de Genotipagem do HIV-1 do Ministério da Saúde e, neste mesmo ano, o Brasil conseguiu reduzir o preço de medicamentos, após ameaçar a quebra de suas patentes. Além disso, foi quando a Lei 10.205, que regulamentava todos os procedimentos relativos a transfusões de sangue, foi enfim aprovada. Assim, ficou proibida a comercialização destes materiais.

Dois anos depois, o Programa Brasileiro de DST/AIDS recebeu um prêmio de 1 milhão de dólares da Fundação Bill & Melinda Gates. A premiação aconteceu em reconhecimento às ações de prevenção e assistência no país, que abrigava 150 mil pacientes em tratamento. Em 2005, o Brasil sediou a 3ª Conferência Internacional em Patogênese e Tratamento da AIDS, realizada pela International Aids Society (IAS).

Num período de três anos, uma grande revolução aconteceu: o teste para detecção do HIV em 15 minutos foi finalmente nacionalizado. A partir daí, a Fiocruz passou a produzi-lo a quase metade do preço anterior. Por fim, em 2009, o Ministério da Saúde bateu recorde de distribuição de preservativos. Mas o número de casos já atingia a marca de meio milhão.

Década de 2010

A partir desta década, a mortalidade pela doença diminuiu em 33%. E isso mostrava que o avanço da Medicina e os esforços das entidades sociais, públicas e civis, estavam sendo bem-sucedidos. Portanto, ainda havia muito a ser feito.

Em 2010, foi lançada a primeira campanha de carnaval voltada ao combate a AIDS, estimulando tanto o uso de preservativos quanto a realização de testes. No ano seguinte, as Casas de Apoia que atendiam adultos soropositivos passou a receber verba do Governo Federal para o financiamento de ações para crianças e adolescentes também.

Também em 2011, o Brasil anunciou a produção nacional de dois novos medicamentos contra a AIDS, por meio de Parcerias Público-Privadas, e de uma versão genérica do tenofovir. Dois anos depois, foi aprovado um novo protocolo para garantir acesso a tratamento por todos os brasileiros com HIV.

Em 2017, a Anvisa autorizou farmácias de norte a sul do país a venderem autoteste para HIV. Neste mesmo ano, o PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) também passou a ser disponibilizado pelo SUS.

Médicos contra o HIV

Há pouco mais de um ano, foi publicado um estudo na revista Aids and Behavior, que levantou dados muito expressivos sobre como os médicos infectologistas devem conduzir o tratamento de seus pacientes. A pesquisa envolveu mais de duas mil pessoas de 25 países, sendo 58 do Brasil.

De acordo com o estudo, quase 30% dos entrevistados disseram que os medicamentos prescritos afetavam suas vidas negativamente. Embora este número represente a minoria é um fato que precisa ser levado em consideração. Até porque, quase 37% destas pessoas não comunicaram este problema aos seus respectivos médicos devido a:

  • Falta de iniciativa do médico em perguntar sobre as reações;
  • Ou desespero por aceitar que nada poderia ser feito;
  • Ou medo de ser rotulado como “paciente difícil”.

Na prática, estes dados revelam que além da especialização em Infectologia, o profissional que escolher o combate ao HIV para sua carreira precisa ter empatia e estar disponível para dialogar com os seus pacientes. Assim, o sofrimento psicológico de haver contraído o vírus poderá ser paulatinamente amenizado a cada consulta.

Não acredita? Pois já existe, inclusive, um Manual para o médico que atende população que vive com HIV/Aids. Este livro foi publicado em 2020 e você pode encontrá-lo neste link.


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